" Quintessência " por Flávio Medeiros Jr


9.11.04


O CONHECIMENTO DO TERRENO

Talvez a coisa que mais me irrite seja aquele cara, quando você vai estacionar, que fica atrás do carro te orientando com a mão, como se você fosse um débil mental que não sabe parar o carro em uma vaga daquele tamanho. E o pior, você sabe que ele faz isso querendo ser simpático, só porque está a fim do seu dinheiro, o que me deixa mais possesso.
A segunda coisa que normalmente mais me irrita deve ser: se tornar vítima da burrice alheia. Digo "normalmente" porque hoje, em especial, essa coisa pulou para primeiro lugar.
Aproveitando minha folga habitual da segundona à noite, fui pegar um cinema no BH Shopping. Fui ver "Os Esquecidos", que não vou comentar agora, senão mudo de tema, porque o filme merece um comentário só para ele. Parei o carro no piso superior ("último acesso", diz a placa), no estacionamento estrategicamente mais próximo dos cinemas. Tem um outro local melhor no piso de baixo, mas está sempre cheio. Explico isso para que se compreenda que é importante, ou melhor, é ESSENCIAL ter o conhecimento do terreno onde se pisa.
Comprei meu ingresso, mas ainda faltava uma hora e meia para o filme começar. Zanzei por ali, e me lembrei que precisava comprar umas coisas essenciais aqui para casa: Coca-cola, chocolate, essas cositas. Decidi ir ao Carrefour. Se você não tem o conhecimento do terreno do BH Shopping, saiba que o Carrefour fica no local mais distante possível dos cinemas, no piso inferior, do lado oposto do shopping em comprimento e largura! E eu já estava com o carrinho bem cheio quando me lembrei o quanto o carro estava distante; olhei intimidado para a embalagem com oito garrafas pet de dois litros de Coca-cola, e decidi consultar um funcionário do supermercado. Perguntei se havia como subir para o estacionamento superior a partir dali, empurrando o carrinho de compras. Ele olhou para o meu carrinho e disse: "claro que sim!" Não sei se foi ganância, ao ver o tamanho da minha compra, mas acredito que não, já que era um funcionário que provavelmente não vai ver um centavo do que eu gastei. Acho que foi burrice mesmo, já que ele trabalha ali.
A orientação do funcionário não me levou nem à metade do caminho que eu precisava fazer. Para encurtar a história, já que era impossível encurtar o caminho, tive que empurrar o trambolho barulhento num arco de 180 graus, pelo lado de fora do shopping (e olha que o shopping é grande!), e subir três rampas para carros me desviando dos doidos que subiam ou desciam a rampa em grande velocidade. Cheguei ao carro ensopado de suor, guardei as compras, me recompuz como pude e fui fazer um lanche. Eu tinha um consolo: com o valor de minha compra, recebi um cupom me isentando de pagar o estacionamento.
Assisti o filme, e depois subi as escadas rolantes até o quiosque que fica ao lado da porta do estacionamento onde parei meu carro. Mostrei meu cupom; a moça fez cara de constrangida e disse: "abono do pagamento só no quiosque em frente ao Carrefour". Isso mesmo! Do outro lado do shopping, em comprimento e largura, três pisos abaixo! O maldito shopping nem sequer tem um sistema de rede "on line" para abonar os malditos cupons! Fiz um comentário pouco lisonjeiro a respeito da inteligência do pessoal daquele shopping, como se a pobre infeliz tivesse culpa disso, e desci furibundo pela escada rolante; e pela outra. E estava na metade do caminho quando me lembrei, pelo conhecimento que TENHO do terreno, que eu poderia ter entrado no meu carro, descido todas as rampas por fora até chegar ao lado do quiosque do Carrefour e pegar o abono, já que a cancela de saída fica depois desse trajeto.
A mocinha do quiosque de baixo olhou para minha cara e nem se arriscou a dar "boa noite". Agarrei meu cupom e voltei escadaria acima, amaldiçoando a burrice terceiromundana dos organizadores daquele lugar, meu Deus, se vem um turista estrangeiro aqui, vai pensar que somos índios ou o quê, e amaldiçoando a minha própria raiva que provocou "tilt" nos MEUS neurônios, me deixando no nível deles.
A mocinha do quiosque de cima até se encolheu quando eu passei, mas eu já estava mais calmo. É que o último lugar por que passei no caminho de volta foi a praça de alimentação do terceiro piso, cenário dos primeiros eventos do meu romance "Quintessência". Caminhei devagar, a imaginação saboreando cada imagem do atentado terrorista que escrevi: as metralhadoras pipocando, as granadas explodindo em bolas de fogo, mesas voando em pedaços, o teto derretendo em pingos de plástico fervendo. Eu tinha os detalhes vívidos na mente, pois observei atentamente o terreno antes de escrever, e foi como se fosse real. Saí do shopping satisfeito: eles mereceram; bendita clarividência!
Talvez na segunda edição eu acrescente um parágrafo contando como o piso superior desabou com as explosões, jogando a mocinha do quiosque em cima da chapa quente do McDonalds.

+postado por Flávio Medeiros Jr. - 03:19
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Como costumo dizer, eu tinha duas opções na vida: ser escritor e exercer a medicina como hobby, ou ser médico e escrever como hobby. Como a primeira opção dá cadeia, escolhi a segunda. "Quintessência" é o título do meu primeiro romance, e significa a essência fundamental de todas as coisas. Sugestivo para um nome de blog, não?... Vamulá, de acordo com meu lema: "Nóis capota, mas num breca!"

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