" Quintessência " por Flávio Medeiros Jr
10.9.04
EU E BRUNA, BRUNA E EU...
Ontem, conversando com amigos, revivi esse trauma que me consome. Talvez, contando aqui o episódio, eu exorcise o fantasma.
Tudo aconteceu há alguns anos, quando eu ia para São Paulo a passeio. Em BH, a Fiat acabava de lançar o Palio, daí que a sala de embarque do aeroporto estava cheia de italianos. Mas eis que de repente entra... ela! Cabelos loiros soltos, óculos escuros, calça jeans justa e..botas!!! Se tem uma coisa a que eu não resisto é a uma bela de botas, ainda mais que a bela em questão era ninguém menos que a Bruna Lombardi!
Não tive dúvidas: corri até ela, agarrei-a pelos cabelos, atirei-a no chão acarpetado e fizemos amor ali mesmo, loucamente! Tudo isso em meus pensamentos, claro, e quando voltei a mim ela continuava lá, afastando os cabelos do rosto e olhando casualmente ao redor, naquela atitude que os atores de TV curiosamente adotam graças a uma necessidade insaciável de estarem sendo vistos. E eu sentado de cá, um pobre tarado reprimido.
Embarcamos no avião; eu primeiro, mordendo o lábio de vontade de olhar para trás. Mas me sentei calmamente e pouco depois ela passou por mim, indo se sentar bem ao fundo. Sozinha, as cadeiras ao seu lado vagas, conforme pude verificar pela greta entre as poltronas!
Imaginei em uma fração de segundos pelo menos uma dúzia de ótimos argumentos que me fizessem levantar, caminhar até o fundo e sentar ao lado dela, ora puxando uma conversa descontraída, ora sério e solícito, ora vulnerável e carente. Mas as poltronas ao redor estavam apinhadas de executivos italianos, alguns falando com ela em sua língua pátria, parece que ela veio mesmo participar do lançamento do carro. Quem sou eu para ter a cara de pau de me levantar e ir para o fundo da aeronave, pagar um mico internacional e passar o resto da viagem tendo que ser contido para não pular do avião de vergonha? Fiquei quieto, pensando na Bruna.
O avião desceu em Guarulhos. Na sala de desembarque, aquele tumulto inicial, e depois cada um se afastando com suas malas de rodinhas. A meu lado, a menos de dois metros de distância... Bruna Lombardi! Ela trocou algumas palavras em italiano com os caras, que logo se despediram e se afastaram. Um rapaz pegou um autógrafo na passagem e foi embora satisfeito. À minha frente corria a esteira, minha mala não vinha, e nem a da Bruna. A sala de desembarque ficou vazia, exceto por nós dois: eu e Bruna Lombardi, lado a lado esperando a mala, e mais ninguém!
Voltei-me para ela num ímpeto e disse: "Com licença, me desculpe a ousadia, mas você acabou com toda a credibilidade que a televisão tinha em minha vida!" Ela sorriu e disse: "Por quê?" Eu olhei nos seus olhos e respondi: "Porque alguém me disse que a TV faz as pessoas parecerem mais bonitas do que são na realidade, e você é infinitamente mais linda ao vivo do que na TV!" Ela riu, e me ofereceu uma carona para São Paulo. Aceitei, é evidente.
Evidente também que esse diálogo só aconteceu na minha mente, naqueles segundos (ou horas?) que passei ali de pé ao lado dela, duro como um dois de paus, olhos vidrados se movendo furtivamente para ver detalhes de uma orelha, uma mão ou um pescoço, enquanto ela suspirava, e nem minha mala vinha, nem a dela. Um nó na minha garganta não me deixava respirar, quanto mais falar! E lá dentro a vozinha berrando: "Faaaaala! Fala alguma coisa, miserável! Fala que ela é linda, maravilhosa, que você quer dar uma mordida no cangote dela, mesmo que ela te dê um safanão, desta vez aqui não tem nenhuma testemunha! Você é um homem ou uma ratazana?"
A mala dela veio primeiro. Ela se afastou sem olhar para trás, e desapareceu para sempre da minha vida. A ratazana arrastou-se miseravelmente para um gélido micro-ônibus que me levaria a Cumbica, onde uma amiga devia estar me esperando. Eu fui, me sentindo o mais reles verme na face da Terra, tudo por causa da Bruna Lombardi, que jamais soube de minha existência, nem dos tórridos momentos que compartilhamos desde a Pampulha até a sala de desembarque em Guarulhos, quando ela me abandonou para nunca mais.
Em Sampa foi legal; conheci minhas "sobrinhas postiças" de nove meses, lindas gêmeas que já não vejo há alguns anos. Mas o pior foi na volta: vim de avião com aquele cara que fez o papel de Professor Astromar, aquele altão orelhudo de cara vincada e cabelo ruim, de quem nem sei o nome. Ele veio no micro-ônibus para a cidade sentado na minha frente, decorando algum tipo de script, e desceu na altura da Cachoeirinha, na Cristiano Machado. Ninguém merece.
+postado por Flávio Medeiros Jr. -
01:33
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