" Quintessência " por Flávio Medeiros Jr
24.8.04
IMPRUDÊNCIA
Hoje eu pude dar aquela tradicional cochilada na hora do almoço, para compensar as horas plugado na Matrix durante a madrugada. E eu tive um sonho.
Havia um casarão antigo na Avenida João Pinheiro, quase na Praça da Liberdade, mais ou menos em frente ao Xodó. O casarão era cheio de coisas velhas e pessoas vestidas à moda do século XIX. Havia um cara negro com um paletó e uns babados no peito, tocando um estranho piano em que o músico fica do lado contrário do teclado; eu sei, é difícil visualizar se você não estava lá...com eu estava. Havia uma mulher, vestida como aquelas donas de cabaré dos faroestes, preocupada com algum tipo de "fiscalização", sempre olhando pela janela. O pianista cantava uma música para mim, e de repente eu já ia sendo arrancado dali pelo despertar, quando no último momento vi um velho de fraque e cartola, com um cavanhaque grisalho no estilo Dom Pedro I, e o velho disse: "A vida é imprudência. Exceto por essa prudência chata, que não tem descanso, e que se chama morte."
Acordei. Agarrei rapidamente aquela frase, como quem pega um pássaro que ameaça voar, e corri para anotá-la no primeiro papel que encontrei. Segundos depois as imagens do sonho já se turvavam, como sempre, quando fazemos aquele esforço para lembrar, mas a imaginação começa a preencher as lacunas, e o sonho já não vale mais nada. E a frase ameaçava se desvanecer, mas era tarde: estava anotada.
No início discordei completamente da frase; no segundo momento, reconheci seu valor poético: tem aquele ar rebelde e petulante dos poetas. Depois, refletindo melhor, comecei a entender, e até a concordar. E comecei a gostar. E fiquei assustado!
Quem foi que criou aquela frase? Não me lembro de haver lido isso alguma vez em lugar nenhum. Meu processo de compreensão foi o de um estranho que a ouve pela primeira vez, como se jamais tivesse participado de sua elaboração. Quem faz as engrenagens funcionarem quando nos falta a vigília? Parafraseando Alan Moore: "Who watches the watchers?" Eu não me senti em nenhum momento dono da frase de meu sonho, e de alguma forma isso está errado. Eu tinha que ser, no mínimo, co-autor; meu poeta misterioso, que tantas vezes me ajuda durante o sono, merecia mais camaradagem, mais familiaridade.
E decidi que tenho que pensar mais nele; descobrir do que ele gosta e audá-lo a participar mais da minha vida: fazê-la uma só; desfazer o feitiço de Áquila. E correr sem pudor atrás do que realmente é importante, mesmo que seja difícil, aparentemente inalcançável. Porque a vida também é, no bom e poético sentido, imprudência.
+postado por Flávio Medeiros Jr. -
01:17
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